There are no losers in my paradise

12 janeiro, 2011

A trama principal de “Reconhecimento de Padrões”, primeiro romance ambientado no presente do pai do cyberpunk William Gibson, gira em torno de uma série de vídeos misteriosos que são disponibilizados na internet sem nenhuma explicação. Um bom tempo antes da palavra “viral” se transformar em jargão publicitário corrente, Gibson colocou uma coolhunter com fobia de logomarcas atrás de uma série de vídeos que se multiplicavam sem explicação e sem informação, numa trilha que se estendia do Japão até a Rússia, passando por participações especiais de Chris Cunningham, do bonequinho da Michelin e de um colecionador de calculadoras antigas.

Procurar informação sobre algo – vídeo, imagem, música – é cada vez mais corriqueiro, automático e preciso, mesmo que o Google esteja se tornado aos poucos mais ineficiente embaixo da montanha de ruído formada por spam, informações duplicadas e bobajadas inúteis disfarçadas de SEO. Todo mundo já fez isso: digitar, passar umas duas páginas, verificar se tem um artigo na Wikipédia, e logo uma história surge.

Mas apesar dessa ilusão de “toda informação do mundo disponível na ponta dos dedos”, o Google e a “internet visível” em si não são tão eficientes nem dispõe de tantos dados quanto se poderia imaginar, e cedo ou tarde qualquer usuário mais chato vai cair em algum tipo de limbo onde as informações sobre determinado assunto parecem existir em um vácuo auto-alimentado de minúsculos dados sem importância real.

De vez em quando surge um tópico, um fragmento de informação – música, trecho de texto, fotografia, ilustração – que vira um mini-meme sem esclarecer de onde veio. Foi o que aconteceu no final de 2010 com o Babaluga, um trio de crianças (uma menina com corte de cabelo estranho, um alemãozinho e um marroquino) cantando em inglês usando umas roupas ULTRA 80s, com cenários de cores saturadas, dublando uma música com teclados e baterias eletrônicas.

“My Paradise”, a faixa cantada pelo grupo, parecia feita para se encaixar no recém-renovado rótulo “balearic” (essas bandas hipsters que fingem que estão em Ibiza nos anos 80, saca?). Abrindo com um arranjo duro de cordas sintetizadas, a música logo ganha bateria eletrônica e timbres vintage. Para completar, cada membro tem direito a um interludiozinho de dois versos cantados em rap. É ou não é muita modernidade?

O único problema – que não constitui um problema de verdade, convenhamos – é que não existia nada de relevante sobre o grupo na internet, apenas links para alguns vídeos também fora do contexto (alguns mostrando o Babaluga como um quarteto) ou para MP3 retiradas dos vídeos em si.

Apesar dos “esforços”, que incluíram buscas com diferentes configurações no Google Itália e no Google Alemanha, nenhuma informação interessante – nomes dos integrantes, discografia, ano de criação – sobre o grupo existia. Apenas algumas pistas bem nebulosas podiam ser encontradas: referências à gravadora Deutsche Austrophon (que chegou a lançar alguns trabalhos solo do krautrocker Klaus Schulze); à SASCH Records, gravadora malsucedida criada pela grife italiana nos anos 80; e ao produtor italiano radicado na Alemanha Mino Siciliano, grisalho com uma barba curta e usando óculos que parecia ser o responsável pela existência do grupo.

Sem muitos resultados, mas com um endereço e-mail de trabalho de Siciliano garimpado em seu MySpace, resolvi mandar um mensagem em inglês, me apresentando como jornalista brasileiro e fazendo algumas perguntas básicas sobre o Babaluga – não custa tentar, certo?

Algumas semanas depois, com o Babaluga já semi-esquecido em meio aos planejamentos das festas de fim de ano, me surpreendo com uma resposta vinda do escritório de Mino, contando satisfatoriamente (ainda que sem muita profundidade) a história do grupo. Mistério desfeito, vamos aos fatos.

O Babaluga foi criado pelo produtor em 1985, como primeiro projeto da Sasch Records, que era distribuída pela Deutsche Austrophon. A menina se chama Sonja, e é filha de Mino. Completavam a formação o marroquino Hassan, o alemão Thomas e o italiano Nico, que deixou o grupo mais tarde devido a “problemas familiares”. Segundo Mino a idade média dos membros era de 13 anos.

Produtor de europop com diploma em enologia, Mino começou a carreira tocando guitarra em grupos pop italianos nos anos 60, mas radicou-se na Alemanha em 1970, mas começou a carreira de produtor em 1979, compondo “Dove Vai” para o duo Del Faro (composto pelo cantor alemão Peter Orloff e a siciliana Puzzangaro). Mais tarde, depois do fim da Sasch Records, Siciliano viria a produzir o hino da Alemanha Ocidental nas Olimpíadas de 1988 em Seul, além de participar do Eurovision 1990 representando o país.

Mino compôs as duas únicas músicas do Babaluga, “My Paradise” e “Beach Party”. Numa jogada avançada de cross-marketing (tá certo isso?), os garotos vestiam roupas da Sasch em todos os programas de TV que participavam, além de aparecerem em inúmeros anúncios da marca em revistas de moda.

Porém, como lembra com aparente pesar, Mino teve que acabar com o grupo em 1986, “após diversos problemas escolares”. Segundo o produtor – escrevendo em terceira pessoa – “Mino Siciliano teve que tomar essa decisão para proteger as crianças de um mundo de sonhos errados (‘wrong dream world’)”. Ou seja, uma boyband criada por um italiano picareta para vender roupas que gravou apenas duas músicas e acabou por causa da escola – bem mais prosaico que um romance do William Gibson.

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5 Respostas to “There are no losers in my paradise”

  1. Pedro Moreira Says:

    Obrigado por estragar um meme.


  2. talvez o teu melhor texto até hoje, konssinho. parabéns, bicho, coisa de gente grande mesmo.

  3. fernando ando Says:

    isso é o suprassumo do onanismo indie. get a life, son!

  4. Paulo Rená Says:

    Compartilho da sua curiosidade. Jornalismo cultural é (ou deveria) ser mais isso, e menos rearranjo de release.
    Mandou bem na pesquisa e no relato.


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