Algo tão bobo assim de se querer

18 maio, 2010

Existe um feeling, um sentimento, um barulho, um jeito de dizer as coisas, que me deixa bobo, nostálgico, estranho. Até uns 13 anos de idade, eu tinha passado a vida inteira procurando uma tradução para ele (e de certa forma eu ainda passo tentando definir isso, como nesse texto). Aí eu encontrei o indie rock, perdido em algum passeio em loja de CDs, matéria da Ilustrada, resenha da Bizz, um Lado B da MTV de madrugada.

Lê Almeida por Dani Hasse

Lê Almeida por Dani Hasse

Numa dessas o certo era eu ter sido metaleiro, punk, seilá. Com a grana da minha família, playboy é que não ia ser. É claro que eu gostava de uns lances punks (uns até zoados, tipo Rancid), de Metallica, mas acho que, ou gosto de acreditar que, eu curtia mais Jesus & Mary Chain. O que também não é nada de se orgulhar.

É por ter crescido assim que eu exija menos de bandas de indie rock do que eu exijo dos outros estilos. Não precisa de inovação, conceitos revolucionários, desconstruir as estruturas da canção. Nesse caso uma melodia bacana me conquista – o arranjo pode até ser copiado do Teenage Fanclub, ter uma levada meio Flaming Lips. O que importa é aquela SIMPATIA.

Como eu cheguei atrasado nos anos 90 – não vi nenhum show do Superchunk, quando eu descobri o Pavement a banda acabou – esse indie rock todo era um monstro tão grande quanto, seilá, a psicodelia inglesa, para se enfrentar. Era algo gigantesco, que na era pré-internet só dava para conhecer pelas beiradas.

E aí veio a internet, e vieram os Strokes, e vieram todos os anos 00. A disponibilidade de informação musical estimulou, para mim e para mais um monte de gente da minha idade, uma década de descobertas – eu tive uma longa fase 60s e 70s durante a faculdade, por exemplo.

Quando os 00s foram se aproximando do fim e me mudei para São Paulo, eu também comecei a mirar de volta para os 90s. Um pouco por culpa do namoro/casamento com a Dani, outro pela convivência com velhos como o Adriano e o Rodrigo, outro por aquela série de shows cover do fim da Peligro no Milo.

Mas a verdade é que estava na hora de olhar para trás. De revisitar, de me reconhecer naquilo tudo, de me sentir nostálgico por uma época que nem legal foi, de achar do caralho os fanzines que eu nunca tinha lido, das cartas que nunca mandei, das fitas que nunca copiei.

Porque isso não aconteceu só comigo. A minha geração de atrasados parece estar reinventando o que não viveu aos poucos. Eu não estou falando da volta do Pavement. Tou falando dos Baudelaires, por exemplo.

Fã clube adolescente?
Um camarada me apresentou eles via Twitter, dizendo que eles “são o Tineijão brasileiro!”. Fui ouvir e fiquei feliz. Eles não são a versão brasileira do Teenage Fanclub, mas com certeza seriam chamados de “brit” em 1995.

A gravação é lo-fi – não é ruim, mas quase que tem som de K-7, e aposto que vai ter muita gente reclamando sobre o quão eles são derivativos. Foda-se, tem uma banda em Belém do Pará fazendo um som que me faz feliz, e pra mim isso já ta massa. “She’s a Queen” tem aquela levadinha arrastada que você sabe qual é, aquela que te lembra de tomar café na rodoviária enquanto esperava o ônibus para voltar para casa depois de fazer o vestibular.

Já “I Feel Twisted by You” parece uma banda dos 90 tentando imitar os Beatles – um clichê cristalizado, como aquela banda de moleques semi-punks que parece Ramones ou o tiozão blueseiro tentando ser o Robert Johnson. Não tem nada de errado com isso. É assim que se aprende a compor, a tocar. Na história musical pré-gravação não existiam patrulheiros como nós: “ah, essa sua canção parece com uma que o menestrel William tocou há dois meses por aqui!”.

Acho que o nome mais conhecido desse neo-old-indie é o Superguidis. O quarteto de Guaíba (região metropolitana de Porto Alegre) apareceu na segunda metade dos 00 (tudo bem que os primeiros EPs são de 2003/4) e soava um pouco deslocado na cena pós-Strokes. Afinal, quem ainda se importava com Guided By Voices?

Mas as músicas eram boas, e “Malevolosidade”, “O véio máximo” e “O raio que o parta”, do álbum homônimo de 2006 tocaram em repeat no meu mp3 player de camelô durante meses. Eles foram o primeiro grupo em anos para o qual eu arrisquei tascar um “guítar band” no rótulo.

Aqueles efeitos, uns chorus estranhos, umas distorções meio empapuçadas sem ser “roque de roqueiro”, aqueles feedbacks – era tudo de volta. É claro que as melodias “simples e eficientes” (pra ficar no jargão) ajudaram muito, especialmente nos refrões pra cima de Andrio Maquenzi e Lucas Pocamacho (os principais compositores do grupo).

Outra vantagem é que eles não passavam pelo problema da pronúncia falsa. Sabe, aquela letra em português tentando encaixar em uma música que provavelmente foi composta em embromation anglo-saxão. Os Superguidis simplesmente cantavam com um carregado sotaque portoalegrense, e ele parecia resolver a questão.

Eles já estão com o terceiro álbum engatilhado, e não sei se eu estou esperando tanto. O segundo disco, “A Amarga Sinfonia do Superstar”, parecia que tinha alguma coisa a menos que o anterior. Acho que senti mais falta do sotaque. Mas isso é coisa de tio chato. Sou um patrulheiro, né? Melhor ouvir o novo single, “Não Fosse o Bom Humor” você mesmo. Vai que você discorda de mim.

Nunca tive coleção de alguma coisa pra deixar exposto na parede
Mas eu acho que dessa “redescoberta indie” o mais interessante é o Lê Almeida, que toca em São Paulo na Livraria da Esquina no dia 4 de junho. E nem estou dizendo isso porque eu estou entrevistando o cara por MSN ao mesmo tempo em que escrevo esse texto. É porque as músicas dele realmente são legais, e o jeito que ele faz tudo isso é tão divertido e 90s que nem dá pra acreditar que existe de verdade.

Ele mora na Baixada Fluminense (na cidade de Vilar dos Teles), e vive de consertar malas. Isso, nada de jornalismo, design, funcionalismo público, publicidade. Em plenos 00, começou gravando em fita cassete, em casa, como faz até hoje. Pelo menos agora tem duas mesas de som, oito canais. “Mas não uso todos”, avisa. E na hora de gravar, leva a bateria para o quintal. “O som é mais legal”, diz.

Eu ouvi as coisas dele pela primeira vez via “Alguns barulhos legais”, coletânea do selo dele, o Transfusão Noise, lançado em parceria com a lendária midsummer madness (dá pra usar “lendária” em relação à mm hoje, não?), mas acho que eu estava em outra, e deixei passar.

Voltei a conhecer o selo quando lançaram um tributo brasileiro ao Guided By Voices – agora sim, eu estava no tempo certo, estava até lendo uns LIVROS sobre a banda. Umas coisas pareciam estranhas, outras vergonhosas (o que é a cover do Kid Vinil pra “Everywhere with helicopter”?!), mas tinha muito potencial na coletânea. Ouvi umas coisas legais, mas pô, Lê, é muito complicado entender o site, tem muita banda!

A Dani (sempre ela) me lembrou que eu tinha que ouvir o Lê com mais calma me mandando o link do lindo clipe de “Nunca Nunca”, filmado em Juiz de Fora. A música é um creme, daqueles que transportam você direto para o presente certo, aquele em que você não se frustra no trabalho, na vida na cidade grande, na rotina.

É aquela falta de perspectiva adolescente que se transforma em ilusão de potência. É aquele “agora” que se impõe no passeio flaneur em uma tarde de sábado em uma cidade sem nada para fazer. É o tédio reimaginado não como vontade, mas como realização per se.

Menos lo-fi que o resto da produção de Lê, o EP “Révi”, lançado como vinil 7 polegadas, é todo assim. Das lições aprendidas com o tio Rob Pollard, Lê aproveita a ideia de que a canção se mede por si própria, não importa o tamanho que ela possa apresentar. Para quê encher linguiça se “Curso de Datilografia” cabe em pouco mais de um minuto, e “Voo na Sexta” em menos que isso?

A letra de “Canção para Beto Guedes” é quase pueril? Tá, e daí? E sim, “Hardcore experiência” lembra demais Flaming Lips. Você se importa? Eu não. A vida é muito curta, e eu quero curtir aquilo que muda a minha. E, de certa forma, assim como milhares de músicas já mudaram a minha vida, essas do Lê fizeram isso de novo. Não sou eu quem vai reclamar.

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4 Respostas to “Algo tão bobo assim de se querer”


  1. Lê Almeida é muito amor!

  2. Taís Says:

    Caralho, que foda, Amauri!
    Me identifiquei pra caramba com tanta coisa que você disse aí…
    Fora o timing, tava hoje fuçando umas coisas do GBV…
    enfim, CLAP!


  3. curti mt o texto apesar de qeu em i feel twistd by you n tentamos ser ninguem a não ser agent c nossas influencias que vazam na musica c td a certeza..obrigado amigo!!

  4. fofaun Says:

    falaaaa gonzoo

    aqui é o fofaun (de londrina)
    encontrei teu blog do nada, fuçando em links dentro de links dentro de links.. hehe

    bacana chegar aqui.

    gostei particularmente desse texto.. FODA.. talvez pq diz muito sobre mim tb, outro integrante da “geração de atrasados”
    embora, na hora das descobertas através da internet e strokes nos anos 00, eu tenha parado mesmo nos 60s e 70s… ainda desconheço o 90s (já to baixando o mixtape do Cromo 90… quem sabe né???)

    abração velho!!!


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