E tá tudo bem, neném

12 julho, 2013
O contexto pode ser definido numa frase – sem floreios, truques de linguagem. Direta e simples. “Stereotypes of a black male misunderstood, and it’s still all good”. Estereótipos sobre um homem negro mal interpretados, e ainda tá tudo bem. Fim da segunda estrofe, antes do gancho. Biggie está falando de e para quem ele dedicou a música no começo, em seu conto de ascenção – na época, ele já tinha uma nota, mas não aquela que ele quer mostrar na letra. Ainda assim, se deu bem melhor do que o previsto (até tomar uns pipocos, vdd). Estereótipos de um homem negro mal entendidos. Mas também explica o resto. Preto e dinheiro são palavras rivais? Então mostra pra esses cu como é que faz.
A politização radical do rap nos EUA começou a arrefecer, em diferentes modos, a partir do fim da recessão dos anos 80 que quase esmagou a comunidade negra do país. O velhinho barbudo tava certo, e a economia influencia a vida artística mais do que muita gente gostaria de admitir. Nos anos 00, a partir do fim da recessão do segundo mandato FHC (entre outras questões de contexto, isso aqui é rápido demais para abranger tudo – uma hora abrimos com mais calma essa história), do pleno emprego, da redistribuição, mesmo que minguada, de renda, a música também muda. Mas a raiz permanece. A luta se transforma em outra, maior e mais difusa, e dialoga com outras coisas – e talvez com o maior dilema atual do novo século, o do cidadão enquanto consumidor.
Estereótipos de um homem negro mal interpretados. Não é só sobre o currículo escolar um homem negro. É sobre o que ele tem o direito de desejar, que papel na sociedade ele tem o direito de ter. O Mega Drive E o Super Nintendo. O diamante no brinco da filha e a champa no lugar da água. Lembra qunado eu só tinha sardinhas pra comer no jantar? Explica ao mesmo tempo o aspecto triunfalista no rap do Emicida e alguns dos seus imitadores, o funk ostentação, o rap de Planaltina. E tá tudo bem, neném. Se você não sabia, agora tá ligado.

There are no losers in my paradise

12 janeiro, 2011

A trama principal de “Reconhecimento de Padrões”, primeiro romance ambientado no presente do pai do cyberpunk William Gibson, gira em torno de uma série de vídeos misteriosos que são disponibilizados na internet sem nenhuma explicação. Um bom tempo antes da palavra “viral” se transformar em jargão publicitário corrente, Gibson colocou uma coolhunter com fobia de logomarcas atrás de uma série de vídeos que se multiplicavam sem explicação e sem informação, numa trilha que se estendia do Japão até a Rússia, passando por participações especiais de Chris Cunningham, do bonequinho da Michelin e de um colecionador de calculadoras antigas.

Procurar informação sobre algo – vídeo, imagem, música – é cada vez mais corriqueiro, automático e preciso, mesmo que o Google esteja se tornado aos poucos mais ineficiente embaixo da montanha de ruído formada por spam, informações duplicadas e bobajadas inúteis disfarçadas de SEO. Todo mundo já fez isso: digitar, passar umas duas páginas, verificar se tem um artigo na Wikipédia, e logo uma história surge.

Mas apesar dessa ilusão de “toda informação do mundo disponível na ponta dos dedos”, o Google e a “internet visível” em si não são tão eficientes nem dispõe de tantos dados quanto se poderia imaginar, e cedo ou tarde qualquer usuário mais chato vai cair em algum tipo de limbo onde as informações sobre determinado assunto parecem existir em um vácuo auto-alimentado de minúsculos dados sem importância real.

De vez em quando surge um tópico, um fragmento de informação – música, trecho de texto, fotografia, ilustração – que vira um mini-meme sem esclarecer de onde veio. Foi o que aconteceu no final de 2010 com o Babaluga, um trio de crianças (uma menina com corte de cabelo estranho, um alemãozinho e um marroquino) cantando em inglês usando umas roupas ULTRA 80s, com cenários de cores saturadas, dublando uma música com teclados e baterias eletrônicas.

“My Paradise”, a faixa cantada pelo grupo, parecia feita para se encaixar no recém-renovado rótulo “balearic” (essas bandas hipsters que fingem que estão em Ibiza nos anos 80, saca?). Abrindo com um arranjo duro de cordas sintetizadas, a música logo ganha bateria eletrônica e timbres vintage. Para completar, cada membro tem direito a um interludiozinho de dois versos cantados em rap. É ou não é muita modernidade?

O único problema – que não constitui um problema de verdade, convenhamos – é que não existia nada de relevante sobre o grupo na internet, apenas links para alguns vídeos também fora do contexto (alguns mostrando o Babaluga como um quarteto) ou para MP3 retiradas dos vídeos em si.

Apesar dos “esforços”, que incluíram buscas com diferentes configurações no Google Itália e no Google Alemanha, nenhuma informação interessante – nomes dos integrantes, discografia, ano de criação – sobre o grupo existia. Apenas algumas pistas bem nebulosas podiam ser encontradas: referências à gravadora Deutsche Austrophon (que chegou a lançar alguns trabalhos solo do krautrocker Klaus Schulze); à SASCH Records, gravadora malsucedida criada pela grife italiana nos anos 80; e ao produtor italiano radicado na Alemanha Mino Siciliano, grisalho com uma barba curta e usando óculos que parecia ser o responsável pela existência do grupo.

Sem muitos resultados, mas com um endereço e-mail de trabalho de Siciliano garimpado em seu MySpace, resolvi mandar um mensagem em inglês, me apresentando como jornalista brasileiro e fazendo algumas perguntas básicas sobre o Babaluga – não custa tentar, certo?

Algumas semanas depois, com o Babaluga já semi-esquecido em meio aos planejamentos das festas de fim de ano, me surpreendo com uma resposta vinda do escritório de Mino, contando satisfatoriamente (ainda que sem muita profundidade) a história do grupo. Mistério desfeito, vamos aos fatos.

O Babaluga foi criado pelo produtor em 1985, como primeiro projeto da Sasch Records, que era distribuída pela Deutsche Austrophon. A menina se chama Sonja, e é filha de Mino. Completavam a formação o marroquino Hassan, o alemão Thomas e o italiano Nico, que deixou o grupo mais tarde devido a “problemas familiares”. Segundo Mino a idade média dos membros era de 13 anos.

Produtor de europop com diploma em enologia, Mino começou a carreira tocando guitarra em grupos pop italianos nos anos 60, mas radicou-se na Alemanha em 1970, mas começou a carreira de produtor em 1979, compondo “Dove Vai” para o duo Del Faro (composto pelo cantor alemão Peter Orloff e a siciliana Puzzangaro). Mais tarde, depois do fim da Sasch Records, Siciliano viria a produzir o hino da Alemanha Ocidental nas Olimpíadas de 1988 em Seul, além de participar do Eurovision 1990 representando o país.

Mino compôs as duas únicas músicas do Babaluga, “My Paradise” e “Beach Party”. Numa jogada avançada de cross-marketing (tá certo isso?), os garotos vestiam roupas da Sasch em todos os programas de TV que participavam, além de aparecerem em inúmeros anúncios da marca em revistas de moda.

Porém, como lembra com aparente pesar, Mino teve que acabar com o grupo em 1986, “após diversos problemas escolares”. Segundo o produtor – escrevendo em terceira pessoa – “Mino Siciliano teve que tomar essa decisão para proteger as crianças de um mundo de sonhos errados (‘wrong dream world’)”. Ou seja, uma boyband criada por um italiano picareta para vender roupas que gravou apenas duas músicas e acabou por causa da escola – bem mais prosaico que um romance do William Gibson.


Anton

22 setembro, 2010

Esse texto não é meu – já vou avisando que o Six e a Ramona seguem bem – mas é uma tradução feita em cinco minutos de um texto do Warren Ellis que eu fiz para a Dani. Sei que aqui nem é lugar dessas coisas, mas como eu sou um emo mesmo, vai aí. Tenta não chorar:

Anton

Nossos três gatos foram basicamente resgatados: compramos eles para tirá-los de um pet shop de merda que estava armazenando eles num chão de concreto sujo e frio sem nenhuma comida visível perto deles. O menor dos três acabou sendo levado às pressas para o veterinário no dia seguinte, que nos disse que, se tivéssemos esperado mais 24 horas, ele estaria morto. Eu estava trabalhando num personagem pequeno e cagado na época, e foi daí que o gato pequeno e cagado ganhou seu nome: Anton.

Anton viveu mais dezesseis anos. Hoje, enquanto o resto da família estava fora, eu trouxe os veterinários para vê-lo, e eles me disseram que ele teve uma falência renal súbita, e não havia mais tratamento. Então eu sentei com ele, e o agradeci, e disse a ele que o amamos e que ele foi um bom garoto enquanto eles deram a ele a injeção, e enquanto eu embalava ele, ele me deu aquele olhar semicerrado dizendo que tudo estava bem, e então ele dormiu. E eu acabei de enterrar ele no quintal.

E eu estou escrevendo esse texto porque no começo ele era o meu amigo, que andava pela casa na palma da minha mão, e depois ele virou o melhor amigo da minha filha por muitos anos, e porque ele veio comigo ao quintal há três dias (ele era desses gatos que não saem de casa) e ficou na beira da calçada, virado para o jardim, e deu cinco ou seis miados altos para o crepúsculo, como se dissesse “eu estive aqui. Saibam de mim. Eu estive aqui”.

E ele esteve, e foi bom. E ele merece que mais pessoas saibam que ele esteve aqui.

E agora vem a parte mais difícil, esperar todo mundo chegar em casa e contá-los o que aconteceu. Mas o meu pequeno camarada está dormindo no jardim agora, do lado das papoulas do meu falecido pai, e com isso, e com esse texto, eu cuidei dele do melhor jeito que pude.


Renascer no ar

22 junho, 2010

São seis bilhões de almas em todo o mundo – pura multidão. É por isso que tentam vender pra você essas “exclusividades” cheias de filas, esses “ambientes selecionados”. É pra fingir que um lugar menor abarrotado com menos gente é melhor do que muita gente em um lugar maior.

Na era das multidões permanentes, é preciso mais do que dinheiro para se obter exclusividade de algo realmente relevante. É preciso amor sincero e paciência plena. É preciso desapego e certeza.

Para se obter algo único, uma “experiência completa”, é preciso jogar fora algumas coisas. É preciso mergulhar durante algumas horas em um lugar específico, durante um evento específico que não foi bem planejado, afinal você não está pagando por ele. Ou pelo menos, está pagando muito menos do que ele valeria nominalmente no mercado negro de experiências.

É preciso se assumir as demandas pesadas da realidade, lembrar que a cada momento você está deixando de saber uma última novidade que vai ficar velha daqui a 20 minutos, que você está deixando de comparecer a 30 outras coisas incríveis e de falar com 200 outras pessoas exclusivas. Sua exclusividade depende do seu compromisso com você mesmo.

Mas faz algumas semanas que eu tive a oportunidade de participar de um desses míticos acontecimentos, em um pequeno grupo. Foi em uma sobreloja no ponto mais alto de Perdizes. Você entra por uma porta vermelha e sobe uma escada comprida. Ali, no que mais parece uma república estudantil, funciona a sede da gravadora Cloud Chapel.

Eu não compareço muito a eventos desse tipo fora da minha casa, o que é uma pena. A natureza do meu trabalho por vezes me força a me fazer gastar muito tempo com unanimidades ou polêmicas vazias ou novidades com prazo de validade. Me sobra uma parca e curta vida que prefiro dedicar à Dani, ao Six e à Ramona, meus eventos particulares diários.

Você deve ter ouvido falar da Cloud Chapel. Quer dizer, vai saber. Você não precisa saber de tudo. Nem eu. A gravadora é uma ideia do Stan. Ele tocava nos Telepatas (eles existem ainda?). Agora ele tem um projeto solo, chamado Quarx! Quarx!. Ele diz que alguém disse que parece Microphones. Eu concordo.

A Cloud Chapel lança discos gravados em quartos. Eles têm um site bacana, em inglês e protuguês. Espero que os gringos descubram o lance logo. Até agora saíram dois discos, “Vestígios da Megafauna”, do Acessórios Essenciais, e “Malta”, do Península Fernandes. Os dois podem ser baixados no site da gravadora. Segundo o Rodrigo Sommer, o Acessórios Essenciais pode ser resumido como “Tom Jobim mais Animal Collective”. O Península Fernandes ninguém se arriscou a classificar até agora.

De vez em quando a turma da Cloud Chapel resolve abrigar alguma apresentação musical em sua sede. A última, essa que estou tentando descrever, foi do Bonifrate, vocalista do Supercordas que mantém uma “carreira” solo. Ao lado dele na voz e violão, ruídos etéreos são providos pelo companheiro de banda Giraknob, com a participação ocasional de Alexander Zhemchuzhnikov no sax.

Bonifrate é daqueles gênios, no bom sentido, que brotam com facilidade insuspeita quando os especialistas em encontrar gênios não estão olhando para o lado certo. Por outro lado, ele não é um revolucionário, nem reformador. Existe um aspecto zen nas suas composições que parecem zombar de todas as nossas noções de “progresso musical”, listas de artistas mais influentes, linhas do tempo.

É pura inspiração, são hinos, são músicas de fogueira, onde o tema subjacente é tão veículo quanto a voz, o violão, a melodia. “Ele é o nosso Jeff Mangun”, celebra o preciso Rodrigo. Assim como o Neutral Milk Hotel, suas composições demandam atenção instantânea. Por mais que sejam melódicas e estruturalmente simples, não servem de trilha sonora, precisam ser escutadas ativamente, exigem concentração.

Isso é exclusividade verdadeira. É estar em um lugar com um objetivo definido, acompanhado de pessoas que compartilham da mesma missão. E ela não tem um preço definido em divisas. Ela só acontece com dedicação, escolha, precisa de tempo investido, é mais essência que aparência. Quantos reais custa isso?

Bonifrate sabe das contas a serem pagas, mas também sabe que as contas não definem a vida. Os Supercordas ainda terminam seu novo álbum, sucessor de “Seres Verdes ao Redor”, de 2006. Enquanto isso, seu próximo solo vai crescendo, e já tem tema: o proverbial pé-na-bunda.

Ele terminou um relacionamento recentemente, e já tem duas novas composições: “Eugênia” e “Cantiga da fumaça”. A última já pod(ia)e ser ouvida, em versão lo-fi, no MySpace dele. É uma “It’s all over now baby blue” estóica. Por outro lado, ele diz não gostar de “Blood on the tracks”, o álbum de separação de Bob Dylan lançado em 1975.

(Para ouvir as inéditas “Eugênia” [catarse sem escalas], “Naufrágio” e “Cantiga da Fumaça”, baixe o ótimo áudio do show deles no Plano B, no Rio)

Ao final do show (acontecido no chão, alguns amplificadores e duas TVs ligadas em ruído branco fazendo as vezes de cenário) vem o costumeiro grito de bis. Eu peço “Cidade nas nuvens”, uma das minhas favoritas – ao lado da cover de “Aldebaran”, da banda Filme.

Ele faz uma cara de leve desânimo. Mais tarde explica que não gosta de tocar a faixa sem o acompanhamento do arranjo presente na gravação. Só voz e violão fazem dela um desafio. E ver ele se digladiar com o instrumento faz o desafio belo. A fragilidade da interpretação só dá força à música.

“Eu vou renascer no ar, numa fazenda de nuvens”, começa. “E do céu lacrimejar a chuva das minhas lembranças/ Na moleira das crianças/ E me esquecer que já nadei num mar de esperanças”. A primeira pessoa é retórica e logo se volta para fora.

“E as pedras que um dia atirei no rio que beira a estrada/ Ricocheteiam leves antes de afundar como uma pergunta quebrada”. Despida do enlevo do arranjo original, a música vira fato, se impõe sobre a realidade. “Pedras somos nós”, reconta o bardo, aquele que mente pela verdade, que diz o proibido.

“E pedras não podem/ Com a força do rio a carregar/ Com a força do rio a carregar”, sentencia Bonifrate, se contradizendo no simples fato de cantar/ contar. A sua arte é enlevo, é a própria contracorrente, o contrassenso do rio, do fluxo. É ela que carrega as pedras para o outro lado. Mas o segredo é que essa fuga, talvez a única possível, não se dá pela força. O caminho é mais sutil, dolorido, obscuro e caro. E mais sublime.

Bônus:

Cantiga da fumaça (Letra)

(Letra e música: Bonifrate)

As ruas andam vazias
O bonde sem condutor
E os especialistas todos acreditam que não vingará

Um novo plano escapista
Parece indigno de ti
Mas os planos, as palavras, a cozinha e o chuveiro não querem dizer

Que o tempo pode parar
De engatinhar

Então leva tudo que quiser
Que agarre na memória
E empilha nos porões
Musgosos e mofados
Que abrigam os amores vãos

A multidão descabida
Sem fundo para projetar
Seus maltes, seu silêncio, sua tara, sua prosa, mariposa que já vai voar

Num arremedo de paz
Que a fumaça traz

Então deixa tudo que quiser
Que eu pregue na cortiça
Que eu acho alguém para pedalar
Comigo e toda a minha grande alma destemida
Possantes pelas ruas
Velhas e vazias
Em movimento circular
Como os discos
Que soam nos porões
Ruidosos e mofados
Que abrigam os amores vãos


I was born in the 80s

17 junho, 2010

Eu nasci nos anos 80, e é por isso que eu sou (quase) cria dos anos 90. Vou aproveitar a Cromo 90, festa minha, da Dani, do Adriano e do Ugeda, para comemorar meu aniversário de 26 anos. Se você quiser entender um pouco da vibe do EVENTO, aproveita pra baixar a mixtape que eu fiz. MAS se você quiser HITS, é só pedir pra nossa convidada especial do dia, Kátia Mello.

C-90 Mixtape – Born in the 80s

01 – Yo La Tengo – “Sugarcube”
02 – The Rentals – “Friends of P.”
03 – Guided By Voices – “Gold Star For Robot Boy”
04 – Ween – “Push th’Little Dasies”
05 – Supergrass – “Alright”
06 – Astromato – “No Macio, No Gostoso”
07 – Superchunk – “Precision Auto”
08 – Sonic Youth – “Superstar”
09 – Slint – “Good Morning Captain”
10 – Soundgarden – “Black Hole Sun”
11 – Pelvs – “Next to Mantra”
12 – The Charlatans – “The Only One I Know”

Link: http://www.mediafire.com/?kyu1nynqhgk

Cromo 90 – o melhor do rock dos anos 90
Quando: quinta-feira (17), a partir das 23h
Onde: Rua Dona Germaine Burchard, 421 – Água Branca – São Paulo
Quanto: R$ 10 – Double Brahma e Double capirinha das 23h às 00h (a casa NÃO aceita cartões)
www.twitter.com/cromo90
www.neuclub.com.br


Algo tão bobo assim de se querer

18 maio, 2010

Existe um feeling, um sentimento, um barulho, um jeito de dizer as coisas, que me deixa bobo, nostálgico, estranho. Até uns 13 anos de idade, eu tinha passado a vida inteira procurando uma tradução para ele (e de certa forma eu ainda passo tentando definir isso, como nesse texto). Aí eu encontrei o indie rock, perdido em algum passeio em loja de CDs, matéria da Ilustrada, resenha da Bizz, um Lado B da MTV de madrugada.

Lê Almeida por Dani Hasse

Lê Almeida por Dani Hasse

Numa dessas o certo era eu ter sido metaleiro, punk, seilá. Com a grana da minha família, playboy é que não ia ser. É claro que eu gostava de uns lances punks (uns até zoados, tipo Rancid), de Metallica, mas acho que, ou gosto de acreditar que, eu curtia mais Jesus & Mary Chain. O que também não é nada de se orgulhar.

É por ter crescido assim que eu exija menos de bandas de indie rock do que eu exijo dos outros estilos. Não precisa de inovação, conceitos revolucionários, desconstruir as estruturas da canção. Nesse caso uma melodia bacana me conquista – o arranjo pode até ser copiado do Teenage Fanclub, ter uma levada meio Flaming Lips. O que importa é aquela SIMPATIA.

Como eu cheguei atrasado nos anos 90 – não vi nenhum show do Superchunk, quando eu descobri o Pavement a banda acabou – esse indie rock todo era um monstro tão grande quanto, seilá, a psicodelia inglesa, para se enfrentar. Era algo gigantesco, que na era pré-internet só dava para conhecer pelas beiradas.

E aí veio a internet, e vieram os Strokes, e vieram todos os anos 00. A disponibilidade de informação musical estimulou, para mim e para mais um monte de gente da minha idade, uma década de descobertas – eu tive uma longa fase 60s e 70s durante a faculdade, por exemplo.

Quando os 00s foram se aproximando do fim e me mudei para São Paulo, eu também comecei a mirar de volta para os 90s. Um pouco por culpa do namoro/casamento com a Dani, outro pela convivência com velhos como o Adriano e o Rodrigo, outro por aquela série de shows cover do fim da Peligro no Milo.

Mas a verdade é que estava na hora de olhar para trás. De revisitar, de me reconhecer naquilo tudo, de me sentir nostálgico por uma época que nem legal foi, de achar do caralho os fanzines que eu nunca tinha lido, das cartas que nunca mandei, das fitas que nunca copiei.

Porque isso não aconteceu só comigo. A minha geração de atrasados parece estar reinventando o que não viveu aos poucos. Eu não estou falando da volta do Pavement. Tou falando dos Baudelaires, por exemplo.

Fã clube adolescente?
Um camarada me apresentou eles via Twitter, dizendo que eles “são o Tineijão brasileiro!”. Fui ouvir e fiquei feliz. Eles não são a versão brasileira do Teenage Fanclub, mas com certeza seriam chamados de “brit” em 1995.

A gravação é lo-fi – não é ruim, mas quase que tem som de K-7, e aposto que vai ter muita gente reclamando sobre o quão eles são derivativos. Foda-se, tem uma banda em Belém do Pará fazendo um som que me faz feliz, e pra mim isso já ta massa. “She’s a Queen” tem aquela levadinha arrastada que você sabe qual é, aquela que te lembra de tomar café na rodoviária enquanto esperava o ônibus para voltar para casa depois de fazer o vestibular.

Já “I Feel Twisted by You” parece uma banda dos 90 tentando imitar os Beatles – um clichê cristalizado, como aquela banda de moleques semi-punks que parece Ramones ou o tiozão blueseiro tentando ser o Robert Johnson. Não tem nada de errado com isso. É assim que se aprende a compor, a tocar. Na história musical pré-gravação não existiam patrulheiros como nós: “ah, essa sua canção parece com uma que o menestrel William tocou há dois meses por aqui!”.

Acho que o nome mais conhecido desse neo-old-indie é o Superguidis. O quarteto de Guaíba (região metropolitana de Porto Alegre) apareceu na segunda metade dos 00 (tudo bem que os primeiros EPs são de 2003/4) e soava um pouco deslocado na cena pós-Strokes. Afinal, quem ainda se importava com Guided By Voices?

Mas as músicas eram boas, e “Malevolosidade”, “O véio máximo” e “O raio que o parta”, do álbum homônimo de 2006 tocaram em repeat no meu mp3 player de camelô durante meses. Eles foram o primeiro grupo em anos para o qual eu arrisquei tascar um “guítar band” no rótulo.

Aqueles efeitos, uns chorus estranhos, umas distorções meio empapuçadas sem ser “roque de roqueiro”, aqueles feedbacks – era tudo de volta. É claro que as melodias “simples e eficientes” (pra ficar no jargão) ajudaram muito, especialmente nos refrões pra cima de Andrio Maquenzi e Lucas Pocamacho (os principais compositores do grupo).

Outra vantagem é que eles não passavam pelo problema da pronúncia falsa. Sabe, aquela letra em português tentando encaixar em uma música que provavelmente foi composta em embromation anglo-saxão. Os Superguidis simplesmente cantavam com um carregado sotaque portoalegrense, e ele parecia resolver a questão.

Eles já estão com o terceiro álbum engatilhado, e não sei se eu estou esperando tanto. O segundo disco, “A Amarga Sinfonia do Superstar”, parecia que tinha alguma coisa a menos que o anterior. Acho que senti mais falta do sotaque. Mas isso é coisa de tio chato. Sou um patrulheiro, né? Melhor ouvir o novo single, “Não Fosse o Bom Humor” você mesmo. Vai que você discorda de mim.

Nunca tive coleção de alguma coisa pra deixar exposto na parede
Mas eu acho que dessa “redescoberta indie” o mais interessante é o Lê Almeida, que toca em São Paulo na Livraria da Esquina no dia 4 de junho. E nem estou dizendo isso porque eu estou entrevistando o cara por MSN ao mesmo tempo em que escrevo esse texto. É porque as músicas dele realmente são legais, e o jeito que ele faz tudo isso é tão divertido e 90s que nem dá pra acreditar que existe de verdade.

Ele mora na Baixada Fluminense (na cidade de Vilar dos Teles), e vive de consertar malas. Isso, nada de jornalismo, design, funcionalismo público, publicidade. Em plenos 00, começou gravando em fita cassete, em casa, como faz até hoje. Pelo menos agora tem duas mesas de som, oito canais. “Mas não uso todos”, avisa. E na hora de gravar, leva a bateria para o quintal. “O som é mais legal”, diz.

Eu ouvi as coisas dele pela primeira vez via “Alguns barulhos legais”, coletânea do selo dele, o Transfusão Noise, lançado em parceria com a lendária midsummer madness (dá pra usar “lendária” em relação à mm hoje, não?), mas acho que eu estava em outra, e deixei passar.

Voltei a conhecer o selo quando lançaram um tributo brasileiro ao Guided By Voices – agora sim, eu estava no tempo certo, estava até lendo uns LIVROS sobre a banda. Umas coisas pareciam estranhas, outras vergonhosas (o que é a cover do Kid Vinil pra “Everywhere with helicopter”?!), mas tinha muito potencial na coletânea. Ouvi umas coisas legais, mas pô, Lê, é muito complicado entender o site, tem muita banda!

A Dani (sempre ela) me lembrou que eu tinha que ouvir o Lê com mais calma me mandando o link do lindo clipe de “Nunca Nunca”, filmado em Juiz de Fora. A música é um creme, daqueles que transportam você direto para o presente certo, aquele em que você não se frustra no trabalho, na vida na cidade grande, na rotina.

É aquela falta de perspectiva adolescente que se transforma em ilusão de potência. É aquele “agora” que se impõe no passeio flaneur em uma tarde de sábado em uma cidade sem nada para fazer. É o tédio reimaginado não como vontade, mas como realização per se.

Menos lo-fi que o resto da produção de Lê, o EP “Révi”, lançado como vinil 7 polegadas, é todo assim. Das lições aprendidas com o tio Rob Pollard, Lê aproveita a ideia de que a canção se mede por si própria, não importa o tamanho que ela possa apresentar. Para quê encher linguiça se “Curso de Datilografia” cabe em pouco mais de um minuto, e “Voo na Sexta” em menos que isso?

A letra de “Canção para Beto Guedes” é quase pueril? Tá, e daí? E sim, “Hardcore experiência” lembra demais Flaming Lips. Você se importa? Eu não. A vida é muito curta, e eu quero curtir aquilo que muda a minha. E, de certa forma, assim como milhares de músicas já mudaram a minha vida, essas do Lê fizeram isso de novo. Não sou eu quem vai reclamar.


“Keep calling on the phone”

25 setembro, 2008

Camila abre a porta, e uma luz amarela derrama-se pelo corredor, iluminando sem mostrar, deixando espaços para a imaginação. “You walking on me”, canta com classe e aquela confiança tímida de starlet. Seduzindo como se aquilo tudo não fosse com ela, é cortejada pela instrumentação, um som por vez, abrindo passagem para seu desfile triunfal pela sala. Então, com a mesma classe e elegância, muda de rumo, reclamando do rapaz que “keep calling on the phone”.

É assim que se chega à segunda parte do remix que o trio canadense Born Ruffians aprontou para “Keep Cooler”, canção do grupo brasiliense Nancy. De banda instrumental, o Nancy foi transformado completamente com a entrada de Camila Zamith, que com a própria voz impõe novas estruturas e dinâmicas para a banda – como diria Guilherme Barrella (do selo Open Field/ Peligro) sobre o lançamento do segundo EP do grupo, As Doença, “black metal para namorar”.

Uma das últimas canções compostas para o álbum inédito Chora, Matisse, “Keep Cooler”, a original, é um exemplar perfeito da capacidade da banda em manter sua música entre a experimentação e a elegância – tocou na BBC, foi lançada em site gringo, circulou por blogs do mundo todo.Com nome de bebida alcoólica para adolescente e com gosto de champanhe caro, a canção é feita de guitarras, mudanças de andamento, instrumentação variada, e Camila conduzindo tudo, cantando impetuosamente, desafiante.

Os Born Ruffians fizeram inverter tudo, a começar pelas partes da canção. Aqui ela começa pelo fim, enquanto vemos o Camila dialogar consigo mesma, naquele desfile do primeiro parágrafo. Boteco em Las Vegas, cantora de jazz dos anos 50, rodinha de violão, hit indie de reunião em apartemento – os Ruffians acentuam, ao mesmo tempo, a intimidade e a sensualidade da canção, que é ao mesmo tempo lamento, chamada e reflexão. O truque no remix é equilibrar todos essas tonalidades de Camila e lhe fazer uma cama parecida com o instrumental da original, substituindo a estranheza por elegância.

Quando a garota canta para que você “feel lucky that I never stopped until I know/ And I don´t know…”, já ganhou – simpatia, coração e ouvidos do mais desavisado que cruzar com ela. As sutilezas compõem-se todas e a canção vai terminar num tour-de-force de coração quebrado e sussurros vocais dobrados. E quando você percebe que “I prayed it was over” é a senha para o fim da canção, percebe que vai ter que apertar o play de novo.

[DOWNLOAD] – Nancy – Keep Cooler (Born Ruffians Remix)


The Sounds of Silence

23 setembro, 2008

“Silence is golden”, dizia aquela canção do Frankie Valli que foi içada ao primeiro posto das paradas inglesas no final dos anos 60 pelos Tremeloes. Na verdade o silêncio total não existe, apenas existe uma impressão disso – como provou a si mesmo John Cage quando entrou numa câmara silenciosa na Universidade de Harvard para se pegar ouvindo o som grave do bater do seu coração e a onda aguda que indicava o funcionamento do sistema nervoso.

É claro que isso diz mais sobre a natureza do som e da nossa percepção sonora que sobre música pop em geral – e a discussão poderia voar longe, da clássica “4’33”” do próprio Cage ao Dia Sem Música do Bill Drummond. E a idéia aqui é sobre como falam os silêncios e os sussurros, que de certa forma são a própria linguagem de muitos artistas, de Jandek a João Gilberto. E do Spengler Tenglers.

De carreira intermitente e produção limitada (no total gravaram apenas sete composições próprias), a dupla catarinense (Dani Hasse nos vocais e baixo, Alexandre Lima na guitarra/ violão e vocais) se baseava, em muito, no controle das intensidades de volume. Falando assim, parece hermético, mas é só descer até o fim dessa matéria, baixar o disco deles e colocar para tocar enquanto lê, e então tu vais entender melhor.

O EP Seven Songs não tem nenhum momento de silêncio “absoluto”, mas se equilibra numa sutileza lo-fi onde os “silêncios” são o próprio respirar, o próprio batimento cardíaco da música. São canções onde o não-dito comunica e significa muito mais do que aquilo que é declarado, assumido. Os violões e efeitos são cama, cenário, indícios e pistas para qual aponta a música.

As vozes dialogam em contraste – o sussuro grave de Lima e o agudo delicado de Dani se complementam espontaneamente, como se ambos os sons tivessem nascido um para o outro. Assim, transformam as influências, assimilando-as para seu próprio mundo. Um mundo que gravita em torno de Arquivo X e Sandman, Echo & The Bunnymen, Sebadoh e Cowboy Junkies.

Com os últimos, o Spengler Tenglers compartilha a aura de segredos revelados à penumbra do clássico The Trinity Session – e aqui, como no álbum dos Junkies gravado na Igreja da Santíssima Trindade em Ontário, por mais pessoais que os segredos revelados sejam, eles tomam forma de mistérios religiosos, transmitidos de geração a geração oralmente à sombra da incompreensão alheia. É como se a Missa do Galo do Arcade Fire fosse transformada em novena numa casa de madeira no interior – sai toda a pompa, sobra toda a fé.

A dupla (já na época, ex-namorados) foi formada em 1997. Uma das excelências do indie catarinense, Lima era o chefe da Low Tech Records e tinha um currículo extenso de passagem por bandas como Minds Away, Gods of Joy, Low Tech All Stars e Lápis – a última com Dani, que viria a liderar o Hey, Miss! e hoje é baixista do Stuart. Desde o começo, a idéia era “algo mais natural”, diz Dani, “nada de vocais ensaiados como nas outras bandas, só abrir a boca e deixar a música vir, deixar a voz livre”.

O formato acústico ajudava mais ainda o clima de liberdade criativa e também de tranquilidade, de falta de pressão: “eu tinha um baixo acústico, então era se encontrar em qualquer hora e lugar que a gente pudesse tocar”. Influenciados por Mojave 3 e Mazzy Star (além dos já citados), gravaram uma fita-demo com cinco músicas ainda em 97. A dupla chegou a parar em 98, mas voltou no Natal de 2000 para um show entre amigos. Seven Songs foi gravado em 2002, juntando a faixa inédita “Abducted By Your Heart” ao material que compunha a demo.

O som é reverente, concentrado em si mesmo. O diálogo das vozes é toda e qualquer dança que o Spengler Tenglers sugere – enquanto Lima canta como quem respira pesadamente, naquela sensação de segredos contados ao pé do ouvido, Dani usa seu regristro agudo de maneira única. O tom alto passeia longe daquela voz de fadinha de Kate Bush e Joana Newson, mas ao mesmo tempo não parece ser desse mundo. É uma voz ideal, incorpórea – sobrenatural e também familiar, quente, que reverbera pelos ouvidos diretamente para a espinha, como se produzisse um arrepio de espanto com a sua beleza delicada.

Em “Everything”, “Hollow”, “Indefensive” e pelo resto do EP a forma se repete, não como fórmula, mas como o rumo natural da dupla – eles não sabem fazer música juntos de uma forma que não seja cortantemente linda. “Feeling hollow/Nothing seems to bring me up/ Nothing seems to bring me down” cantam em “Hollow” – e o vazio toma conta da própria música, naqueles momentos em que o próprio som toma as rédeas da compreensão e os significados perdem lugar para a própria empatia inconsciente do ouvinte.

A música do Spengler tenglers é feita desses momentos de empatia, onde som e ouvido são uma coisa só. Deus está nos detalhes, e os detalhes estão por todo lugar no Spengler – o som de um lábio se abrindo antes de qualquer palavra ser dita, o deslizar dos dedos pelas cordas do baixo. É quando, nesses momentos de atenção profunda, o silêncio faz a música dobrar sobre si mesma, em reverência à sua própria beleza. E então o Spengler Tenglers começa a tocar.

‘The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls’
And whispered in the sounds of silence

[DOWNLOAD] Spengler Tenglers – Seven Songs EP


Pictures of Matchstick Men

6 setembro, 2008

Além de começar esse blog aqui para voltar a escrever, eu também voltei a fotografar (com muito incentivo e auxílio da Dani). Acabei de subir dois novos sets de fotos no meu flickrum da última Peligro no Milo e outro da Folk This Town com o Holger e o Music Settlement. Abaixo vão umas amostras desse trampo.


Era Black Flag

4 setembro, 2008

Desculpem o formato notinha/ link, do qual eu reclamei na carta de intenções, mas é que alguém fez muito bem feito um trabalho que eu já tinha me pautado para fazer. Tou falando do Bruno Nogueira, do excelente Pop-Up, um dos poucos blogs de música que prestam no Brasil. Ele colocou dois textos (uma matéria e uma entrevista com Eduardo Ramos) tratando da mais importante notícia da semana: a turnê que a Tronco Produções (em parceria com os selos Slag e Amplitude) armaram com as bandas Fóssil (CE) e Attractive & Popular (EUA). São QUARENTA shows no inteiror de São Paulo, com a intenção de se estender para NOVENTA no Brasil. Acho que nem todo mundo tem noção de que a “era Black Flag” está sendo inaugurada no Brasil.

No fundo, isso sempre foi a grande lição do Our Band Could Be Your Life – que também rende a outra grande notícia da semana: Michael Azerrad vai dar uma palestra (ao lado de Buzz Osbourne, do Melvins) na FNAC Paulista (Av. Paulista, 901) amanhã, dia 05, às 19h. Azerrad é o autor de Our Band Could Be Your Life, bíblia do rock independente norte-americano (e obra que vai ser onipresente neste blog). Mais detalhes sobre a palestra aqui.


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